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> Polícia / Investigação

Publicado em: 20/10/2019 - 10:38:37

Testemunha-chave da Omertà chorou e fez revelações

Em pouco mais de 80 minutos de vídeo, a personagem começa calma, mas vai ficando nervosa e nos últimos minutos chora por se sentir sem saída, com medo de morrer e o mesmo acontecer com os filhos e o companheiro. Define-se como alguém com “a cabeça a prêmio”. Ela sabe demais sobre crimes graves nos quais o marido, que acabou de ser preso, está envolvido.


Se fosse filme, daqueles de fim de noite no domingo, poderia ser essa a breve sinopse do depoimento da esposa do ex-guarda civil municipal Marcelo Rios, 42 anos, em agosto deste ano a promotores do Gaeco (Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado). Mas é vida real e configura um dos fios condutores da investigação responsável pela prisão do empresário Jamil Name, 80 anos, do filho dele, “Jamilzinho”, 42 anos, e de mais 19 pessoas, 15 delas agentes públicos de segurança, apontadas como integrantes de grupo de extermínio atuante há pelo menos dez anos em Campo Grande.


Durante o vídeo, ao qual o Campo Grande News teve acesso, a mulher revela que dentro de casa, os crimes atribuídos ao grupo, desde assassinatos à corrupção de servidores públicos da segurança, não eram segredo. Além de ouvir muitos telefonemas que, mesmo cifrados de alguma forma, permitiram saber o assunto, ela acompanhou a movimentação de integrantes da quadrilha, na preparação de crimes e chegou a receber parte deles em casa.


Também viu o armamento apreendido com Marcelo Rios, destinado ao bando, segundo o Gaeco. Depois da prisão dele, viveu três dias de desespero, conforme conta. 


A mulher cita que Marcelo Rios trabalhava há 4 anos com a família Name, que começou ganhando R$ 625 por semana e até se preso esse valor tinha passado para R$ 1,224, o equivalente a cerca de R$ 5 mil por mês. O trabalho, diz, inicialmente era como uma espécie de faz tudo e passou para segurança específico de Jamil Name Filho, para os investigadores um dos chefes da organização criminosa.


Para atendê-lo, revela a mulher, o ex-guarda civil fazia do jeito que dava os horários no trabalho público. “Ele trabalhava, mas quando o Jamilzinho precisava dele, ele pedia para alguém cobrir ele, tirava o serviço dele e ia correndo pra lá, atender ele”, disse.


Veja o primeiro trecho do depoimento, que teve imagem e voz manipuladas para não identificar a testemunha:


Execuções - Logo depois da prisão do marido, em depoimento ao Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubo a Banco, Assalto e Sequestro), ela de fato não foi tão reveladora. No dia 7 de agosto deste ano, porém, ela foi ao Gaeco, de “livre e espontânea vontade” e contou o que sabia.


Sobre os homicídios atribuídos à quadrilha, ela diz ter ouvido falar principalmente do assassinato do empresário Marcel Hernandes Colombo, 31 anos, um antigo desafeto de Jamilzinho, e da morte, por engano, de Matheus Costa Xavier, estudante de 20 anos filho do alvo verdadeiro, o capitão da Polícia Militar Paulo Roberto Xavier. Sobre um dos casos, chega a citar a cobertura do Campo Grande News.


Segundo ela, depois do erro de alvo no caso de Xavier, o marido ficou mais nervoso do que já ficava a cada crime. A informação que chegou até ela é que Rios deveria ter “contratado” equipe diferente para cometer a execução, mas acabou chamando os pistoleiros de sempre. Indagada sobre quais seriam, disse não saber. Para os delegados e promotores do caso, trata-se de José Moreira Freires e Juanil Miranda Lima, foragidos indicados como pistoleiros do grupo de extermínio.


No relato da testemunha, ela afirma que percebia algo diferente acontecendo pelo comportamento de Marcelo Rios quando ocorriam as execuções. Depois da morte de Matheus, observa, Rios “não comia nem dormia”.


A testemunha-chave fala também da execução do policial reformado Ilson dos Santos, ex-chefe de segurança da Assembleia Legislativa, de 62 anos. Nessa parte, surge uma revelação importante, em fase de apuração, pelo menos segundo o que já veio a público. Ela afirma que, depois do crime, em junho do ano passado, o marido apareceu em casa com R$ 100 mil e que, ouvindo conversas telefônicas dele, soube que levaria o montante na “delegacia, para um delegado, em mãos”. Indagada sobre que delegacia e qual delegado, negou saber.


O CT à que ela se refere é o Centro de Triagem Anísio Lima, no complexo penal na saída para Três Lagoas, para onde Marcelo Rios foi transferido depois de ficar no Garras. De lá, em junho deste ano, foi para o presídio federal de Campo Grande, onde está até hoje. Lá, ele pediu para ser atendido pela Defensoria Pública e anunciou que destituiria o advogado defesa, segundo consta de documento anexado no processo contra ele pela apreensão das armas.


Está prevista a transferência dele para unidade penal federal de Mossoró, no Rio Grande do Norte, mas o juiz Roberto Ferreira Filho, da 1ª Vara Criminal, onde corre a ação, pediu que isso só seja feito em dezembro, depois do interrogatório de Rios na ação relativa à apreensão de armas.


Junto com outros 20 investigados, Rios também é alvo de denúncia por organização criminosa armada, formação de milícia privada, corrupção ativa de servidores e extorsão.






Campo Grande News / Camapuã News

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