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Publicado em: 27/09/2017 - 11:02:19

'Um abismo entre ler e compreender', por José Neres*

Vivemos em uma era de comunicação instantânea, na qual é possível manter contato com pessoas que, às vezes, nem mesmo conhecemos pessoalmente, mas que acabam, pelo menos do ponto de vista virtual, fazendo parte de nosso círculo de amizade. As redes sociais e os grupos de contatos proliferam de modo muito rápido, e o volume de informações recebidas supera em muito o tempo, a disponibilidade e a possibilidade de processar todos os dados que são enviados e recebidos diariamente.

Com a junção da telefonia móvel e a grande rede mundial de computadores, nasceram inúmeras possibilidades de transformar um simples aparelho em um potente instrumento de comunicação, de armazenamento de dados e de interação do indivíduo com as múltiplas mídias que são constantemente são atualizadas e, de um dia para o outro, tornam obsoletas as versões anteriores, inoculando nos usuários uma espécie de necessidade de adquirir os novos modelos e suas respectivas atualizações.

No entanto, mesmo com a possibilidade de adquirir os melhores aparelhos e de atualizá-los com as tecnologias mais modernas, muitas pessoas ainda não conseguiriam adaptar-se a algumas situações muito simples e que aparentemente não exigem tanto esforço como, por exemplo, interpretar algumas mensagens recebidas.

Talvez por preguiça mental, por desconhecimento dos mecanismos básicos de leitura ou por dificuldades em manusear os modernos aparelhos eletrônicos, diversos usuários das redes sociais ou dos grupos de comunicação instantâneas cometem gafes e equívocos na hora em que precisam demonstrar proficiência no ato de compreender e interpretar um texto escrito ou oral.

Por exemplo, se alguém posta em seus grupos ou redes uma informação como a seguinte: “No dia 15 de novembro, às cinco da tarde, na praça de alimentação do Shopping Pingpong, haverá uma palestra com o senhor Rosberbal Pitangueira, médico especialista Saúde da Família, que falará sobre métodos contraceptivos para adolescentes. Entrada gratuita” Momentos depois, surgem algumas perguntas: “Onde será?”, “Qual o horário?”, “Qual o tema da palestra?”, “Quanto custa o ingresso?”, “É de graça?”, “Qual o dia?”, “Qual a formação de Rosberbal Pitangueira?”, “Quem é o palestrante?”...

Tais indagações demonstram claramente que os leitores têm dificuldade extrema na interpretação dos textos. Todas as perguntas já estão respondidas pelo texto e não suscitam dúvidas. Pela lógica, os comentários deveriam remeter à possibilidade, ou não, de comparecer à pertinácia do assunto tratado, à necessidade ou não de falar-se sobre o tema ou qualquer outro tópico que não estivesse contemplado na postagem. Mas não é isso o que acontece.

Minutos, horas ou dias depois, quando alguém comenta a notícia, que geralmente está anexada no comentário, é grande a chance de alguém indagar sobre o que se está falando ou “Que palestra é esta, que nunca ouvi falar?”. Logo após o evento, há grande probabilidade de que uma ou várias daquelas pessoas que anteriormente haviam perguntado sobre as informações que estavam claras na postagem comentem, em tom de irritação, que não foram ao evento por não saberem onde ou quando seria. Alguns chegam a se irritar com a falta de informações dentro das mensagens e pedem que as pessoas escrevam direito.

Fenômenos como o descrito acima, que não são raros, ocorrem por várias razões: seja pela falta de atenção, seja pelas dificuldades tácitas de compreensão de textos ou mesmo por desinteresse pelo assunto. Todavia, seja qual for o motivo, casos como esses demonstram que, mesmo inseridos em um universo de informações, nem todos estão aptos para transformar dados em conhecimentos práticos. Há quem prefira atualizar o sistema operacional a operar uma mudança no modo como lê as informações que aparecem no dia a dia.

*José Neres é professor, pesquisador e doutorando em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional, pela Uniderp




 

Correio do Estado / Camapuã News

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